18/08/2009 Lenda ''Conto de um Vampiro''

Esse conto é em especial para minha amiga: Shayenny



Estava no meu terceiro ano como vampiro. Caminhava pela calçada imunda. Era uma das avenidas do centro de Porto Alegre. A conhecida Avenida Farrapos. Uma fileira de boates eram os únicos estabelecimentos abertos na noite. O néon dos nomes das boates brilhava na rua amplamente iluminada. O vento frio fazia os meus cabelos voarem para o rosto. Quem passasse por mim pensaria ter visto uma assombração. Um jovem de rosto pálido e feições duras. As espinhas, desgraçadas espinhas, desapareceram e agora restava uma pele lisa e morta. Na noite transitavam bêbados e drogados por ali. Oh, sim, as prostitutas e travestis também.

Eu, um vampiro comum, não me dava ao luxo de escolher as vitimas. Afinal, sangue é sangue. Em pouco tempo surgiriam os primeiros raios solares. Era hora de voltar ao meu esconderijo, um acolhedor bueiro de esgoto que encontrei. Era um paradeiro provisório, até encontrar outro lugar maravilhoso como o último.

Logo em frente ia um bêbedo cantarolando sem parar. Porém, para acabar com alegria do sujeito, dois marginais o esperavam na esquina. Seria mais um assalto, talvez seguido de morte. Os meus olhos reparavam na cena quase sem interesse.

Faltavam duas quadras, andei devagar, não tinha razão para correr. Sons conhecidos me fizeram ficar em alerta, eram cães. Não tinha medo de vira-latas, mas o fato me fazia lembrar da minha adolescência, quando invadia pátios para roubar qualquer coisa que valesse a pena, os malditos delatores caninos sempre me surpreendiam. Eles estavam revirando sacolas de lixo procurando o desjejum.

Rosnados ferozes para uma caixa de sapatos do lado de um poste. Minha curiosidade era implacável mesmo sendo um vampiro. Com o meu olhar afastei os cachorros dali. Vi três filhotes de gatos, que mal haviam aberto os olhos.

Sempre gostei de gatos, mas um vampiro não pode ter animais de estimação. Passei a mão neles, eles miaram desesperados sentindo a falta da mãe.
-Foi um prazer conhecê-los, amigos!
Retornei ao meu percurso, alguns passos, parei. Droga!
-Acho que hoje é o dia de sorte de vocês.

Pus a caixa debaixo do braço. Não podia abandoná-los aos perigos que a noite oferecia. Os cães atacariam, mas também tinha a crueldade humana contra os animais. E pensar que os vampiros representavam o mal no mundo.

Enquanto eu caminhava vieram lembranças nítidas da minha infância, elas são mais exatas nos vampiros, mais claras e dolorosas. Lembrei de quando ganhei um filhote de gato, eu tinha onze anos. Até então não era muito apegado em animais, porém com aquele bicho foi diferente.

Meu pai vivia se mudando, uma vez uma cigana disse para ele que jamais ficaria por muito tempo num lugar, depois ela o praguejou por não tê-la paga. Ele era carpinteiro, deixava a sua casa em excelente estado e depois vendia por um preço maior que pagou. Comprava outra casa em mau estado e reformava nos finais de semana. Era um ciclo interminável. No terreno tinha pedaços de madeira, pregos, ferramentas, o verdadeiro caos.

Nessa bagunça o gato subiu numa pilha de paus e a tralha despencou por cima dele. Ficou esmagado no chão. Minha mãe gritou para me chamar, o gato se debatia no chão. Deitado de lado tentava levantar. Uma poça de sangue do animal molhava a terra. Peguei o gato moribundo e lavei numa bacia com água. O pai quando viu mandou matar o bicho, dizendo ser melhor para ele não sofrer, pois morreria inevitavelmente. A mãe não quis se pronunciar. Eu disse não.

De noite fui dormir cedo, levei o gato comigo. Era estranho, naquela época eu estaria na rua usando drogas com os amigos e me preparando para um pequeno furto. Mas fiquei na cama. Incrível, incrível mesmo foi eu ter rezado pela vida do animal. Embora já levasse uma vida delinqüente, freqüentava às vezes uma igreja de evangélicos que ficava na esquina da rua da nossa casa. Nunca fui religioso, era só uma forma de aproximar-me de Deus. Fiz várias promessas para que sobrevivesse.

O gato viveu, mesmo andando torto, sobreviveu. Ficou ranzinza. Era engraçado o jeito que pulava. O único gato retardado do mundo. Quando caçava barata era o nosso divertimento. Fiquei apegado naquele animal como nenhum outro. Meu pai colocava os nomes mais estranhos nos gatos, houve outros na família. Na lista de nomes podia se encontrar Chanda, Chimbica, Chandica, Chandão. O meu se chamava "Basiga", nem me perguntem de onde surgiu esse nome. Eu preferia o diminutivo que era Ba.

Nossa casa estava praticamente reformada na época que veio morar uma família ao lado do nosso terreno. Os novos vizinhos pareciam simpáticos. Tinha uma velha e seu filho mais novo, que também era marginal. Ela tinha vários animais, um cachorro e cinco gatos. O perigo, porém, estava nas gaiolas de passarinhos. A atração de gatos por pássaros era certeira. Mesmo sendo um gato incomum, o meu tentou devorar os pássaros e falhou.

Na primeira tentativa a vizinha o pegou mexendo na gaiola e o afugentou com vassouradas. De noite ela foi reclamar ao meu pai, e o miserável deu razão a ela. O pai tinha um ditado: cada criança e bicho no seu pátio. A vizinha ameaçou por veneno para matá-lo, mas ninguém acreditava que ela chegasse a esse ponto.
Uma semana depois o meu gato entrou na cozinha desvairado, os seus olhos tinham as pupilas dilatadas. Era o veneno. Ele miava num som assombroso, nunca mais esqueceria aqueles gritos. Ele sofreu uma noite inteira até morrer. Chorei de raiva. Fui avisado pelo meu pai para não fazer nada. Que Deus se encarregaria de fazê-la pagar pelas maldades. Ora, Deus, eu o xinguei e blasfemei a noite toda.

No outro dia foram encontradas nas madeiras da cerca que separavam o nosso pátio com o da vizinha cinco cabeças de gato cravadas nelas. Por essa atitude, fui surrado pelo pai. Uma cena macabra, os animais com os olhos abertos e vidrados. O sangue coagulado escorria pelas madeiras pontudas como estacas. Os corpos nunca foram achados. Virou uma lenda no bairro a carnificina. Eu adorava animais, mas por vingança matei. Devia ter matado ela. Alguns meses depois a casa da maldita foi limpa em um assalto. Eu ajudei os ladrões mais velhos. O filho da bruaca deu as dicas no roubo e recebeu em drogas pela ajuda. Jurei que a veria morta no caixão, mas não tornei a ver a velha novamente, mudou-se para outro lugar.

Com essa caixa com gatos poderia ser a redenção das maldades que cometi. Sempre gostei de animais, lamento tanto ter matado aqueles gatos que afinal não tinham culpa alguma, e jamais lamentei todos os humanos que já matei. Porém, uma vez mal sempre mal. Precisava de uma casa para cuidar dos gatos. Rastreei com o meu dom de ler pensamentos toda área. Havia um casal que iria passar os dias de inverno em Gramado. Era perfeito.

O prédio era feio, com uma cor amarelada, todo pinchado. Pendurado como uma aranha na parede eu subi até conseguir entrar por um espaço na grade da entrada. Malditas escadas, prédio miserável sem elevador. Arrombei a porta com um pontapé. Corri antes que o homem tivesse a chance de reagir. Agarrei-o com força e quebrei o pescoço com facilidade. A mulher se trancou no quarto, azar o dela, pois o telefone ficava na cozinha. A porta do quarto era ridícula de tão frágil. Ela chorou, implorou. Segurei o seu pescoço, porém desisti de matá-la daquele jeito. Enfiei as minhas presas na veia pulsante. Caiu a toalha que estava enrolada no corpo. A pele ainda molhada do banho no chuveiro se arrepiou com o frio. Eu era como os gatos, que brincam com as sua vítimas, quis que ela sofresse. Fiz surgir imagens de um inferno na mente dela, que ela padeceria após a morte. O coração foi batendo fraco até morrer.

Os corpos foram colocados no banheiro. Soltei os gatinhos no chão. Na geladeira encontrei o leite. Os filhotes não tomavam o leite no pires. Reclamei da falta de vontade deles. Veio a idéia de usar um aparelho de injeção. Na gaveta do quarto tinha um, como eu sabia disso, ora o dom das trevas. Arranquei a agulha e ficou só à parte de plástico. Sorvi o leite, coloquei na boca dos filhotes e eles beberem. A fome tinha sido tratada. Cuidaria deles até crescerem, passou pela minha cabeça dar o meu sangue a eles, mas a idéia de animais vampiros era repugnante, já bastavam às aberrações humanas-vampiros. Dois dias eu fiquei no apartamento.fazendo com q minha raiva aumentasse de forma inesperada e com minha ingratidão matei meu8s amigos gatinhos.
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2 comentários:

LIFE OF DARKNESS disse...

Bue fixe **
Vampiros a my life.
Adoro-os simplesmente, são seres magnificos.

Sandra Helena* disse...

Lenda ocorrida na minha amada cidado Porto Alegre?
UAU!!!
Simplesmente tri-legal!

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