18/08/2009 Lenda ''A Vingança De Elisa''


Colégio Sta. Maria 1961

Elisa já não conseguia prestar atenção na aula, se contorcia de um lado para o outro com as mãos entre as pernas que balançavam tentando segurar.

- Elisa! Posso saber o que está acontecendo? – perguntou a professora chamando a atenção de toda a classe.

Era o que Elisa temia, a sala toda olhando para ela, sua pele pálida ficou ruborizada. Elisa era uma garota tímida, não tinha amiga, e era sempre hostilizada no colégio. Toda escola tem um aluno que é alvo de piadas, gozações e humilhações. Ela era a preferida no colégio feminino Sta. Maria, um dos mais rígidos e tradicionais colégios de São Paulo.

As outras meninas judiavam dela, por ser extremamente ingênua e não ter o padrão de beleza ideal para elas. Elisa era magra, de pouca estatura, cabelo preto escorrido, seus olhos verdes ficavam quase escondidos pela longa franja.

Foi assim durante anos, e Elisa aos dezesseis não era muito diferente de quando ingressou, sempre introvertida, era muito difícil vê-la sorrir, não participava das conversas e rodinhas das suas companheiras de sala. De família humilde, Elisa se esforçava o máximo para tirar boas notas, mantendo assim a sua bolsa de estudo.

Agora não tinha saída, ela já sabia que seria motivo de piada novamente. Levantou-se e com a cabeça baixa pediu:

- Desculpe professora… É que eu preciso ir ao banheiro.

- Porque você não foi na hora do intervalo? – perguntou a professora sem obter resposta. – Vai! Não quero ninguém fazendo na calça, justamente na minha aula.

A turma foi ao delírio. Elisa se arrumou rapidamente e saiu da sala sob o coro de Mijona!”

As meninas aguardavam com ansiedade a chegada de Clara, elas combinaram de se encontrar no vestiário.

- Você não quer ligar pra ela? Está demorando. Não temos muito tempo. – disse Regina.

- Ela deve estar chegando. Vou mandar uma mensagem. – respondeu Ana.

- Não precisa! Já cheguei…

- Clara! Ainda bem, não temos muito tempo. E aí conseguiu? – perguntou Regina

- Claro! Olha aqui… – respondeu Clara tirando da mochila um pedaço de cartolina e uma caixa de papel.

Clara estendeu a cartolina no chão e colocou trouxinhas de pano em cada extremidade enquanto Ana acendia as velas.

“ Elisa caminhou pelo corredor escuro do vestiário de cabeça baixa tentando não chamar atenção. Impossível! Havia algumas meninas se trocando no vestiário e uma delas logo percebeu sua presença. A garota ficou espiando pela fresta atrás dos armários para ver em qual banheiro ela entrava.

- Pessoal, sabe quem acaba de entrar no banheiro? – sussurrou – Aquela menina esquisita. Como é mesmo o nome dela?

- Elisa? Não acredito! – respondeu a amiga dando um largo sorriso – Vamos dar um susto nela?”

Na cartolina estava o alfabeto e algarismos distribuídos em círculo e as palavras sim e não em cada extremidade.

Sob os olhares atenciosos de suas amigas Clara explicava com calma, passo a passo o ritual para a comunicação com espíritos através do jogo do copo.

- Sempre tive medo de brincar com isso. E se der errado? – disse Ana

- Não fique com medo. Já fiz várias vezes e nunca aconteceu isso, só precisamos seguir as regras direito para que não ocorra nenhum problema. O segredo é acreditar e não demonstrar medo. – respondeu Clara.

As meninas deram as mãos em torno do tabuleiro e começaram o ritual.

- Estamos aqui para nos comunicar com o plano espiritual, gostaríamos de fazer perguntas aos espíritos que aqui se encontram. – disse Clara.

Com o dedo indicador em cima do copo, elas começaram a invocação.

- Tem alguém querendo se comunicar? – perguntou Clara

O copo permaneceu imóvel.

- Algum espírito gostaria de se comunicar? – perguntou novamente.

- Acho que eles não estão muito afim. – disse Regina

- Concentrem-se! Deixem a mente vazia… – disse Clara – Invocamos os espíritos que aqui estejam e queiram se comunicar. Tem alguém ai?

O copo se arrastou vagarosamente até a palavra SIM e retornou para o centro. Ana e Regina arregalaram os olhos.

- Você quer se comunicar conosco? – perguntou Clara.

O copo novamente se moveu na direção afirmativa.

- Quem é você? Pode dizer o seu nome? – perguntou Ana

O copo começou a se mover quando foi interrompido por uma forte batida no armário.

- Posso saber o que vocês estão fazendo aqui?

“As garotas retiraram folhas de seus cadernos, juntaram embaixo da porta sem que Elisa percebesse, e colocaram fogo. O papel começou a queimar rapidamente, as chamas começaram a queimar o fundo da porta. Elas tentavam segurar a vontade de rir e se amontoavam no banheiro ao lado para ver o que aconteceria. Elisa se assustou ao ver toda aquela fumaça saindo da porta, vestiu sua saia rapidamente e tentou abrir a trava, mas o fogo estava consumindo rapidamente a velha porta de madeira. Ela começou a berrar desesperada e as meninas riam com toda a situação.

- Elisa aqui em cima! Suba por aqui! – gritou uma delas no vão do banheiro ao lado.

O sistema de incêndio foi acionado, o alarme ecoava pela escola inteira.”

Clara levantou assustada e ficou na frente do tabuleiro, ela conhecia essa voz. Todos no colégio conheciam. Era a inspetora Helena, a funcionária mais velha do colégio, sua vida era o Sta. Maria, não se cansava nunca de desempenhar o duro trabalho que carregava há quase quarenta anos.

Elas rapidamente foram ao encontro da inspetora para evitar que ela visse o tabuleiro.

- Desculpa Dona Helena, sou eu, a Clara.

- O que vocês estão fazendo nessa escuridão meninas?

- Estávamos procurando o brinco da Regina, mas já encontramos. – retrucou Clara tentando disfarçar.

- E estão procurando brinco no escuro? Ora vamos logo! Vocês estão atrasadas… Mas o que é isso? Pra que essas velas?

As meninas tentaram, mas, não conseguiram enganar a velha inspetora.

- Alguém pode me dizer que diabos é isso?

As meninas ficaram sem reação…

- Até você Clara?

- Eu posso explicar. Isso é apenas um jogo. – disse Clara

A inspetora se abaixou e com sua lanterna iluminou o tabuleiro.

- Isso mais parece um culto a Satanás. As senhoritas conhecem as regras da nossa escola. Jogos não são perm…

A velha Helena não podia acreditar no que via. O copo começou a mover-se sozinho pelo tabuleiro.

“Elisa apoiou-se no vaso sanitário, tentando atravessar a divisória.

- Isso Elisa! Força! – gritou desesperada uma das meninas – Você está conseguindo!

Ficou na ponta dos pés, chegando ao limite e segurou firme a divisória. Os sapatos molhados não sustentaram a pressão, Elisa não conseguiu se segurar, sofreu uma forte alavanca e bateu a cabeça no vaso.

- Oh! Meu Deus! Ela caiu! Ela caiu! – gritou a menina desesperada.

O zelador e a inspetora entraram correndo pelo vestiário com um extintor. Enquanto ela tentava apagar as labaredas que consumiam a porta, o zelador subia pelo banheiro ao lado.

- Ela está ferida. Helena, eu vou ter que pular.

O zelador saltou e com pontapés derrubou o que restara da porta.

Elisa estava caída com um corte profundo na cabeça, o vaso estava repleto de sangue, seus olhos estavam abertos sem nenhuma direção.

- Afastem-se! Afastem-se! – gritava o zelador com a garota no colo.

O vestiário já estava repleto de professores e alunos curiosos, tentando saber o que se passava.

- Minha nossa! Ela está… Ela está… Morta! – gritou a inspetora levando as mãos à cabeça.”

Juntamente com a inspetora as meninas se aproximaram para ver o copo. Ele começou a deslizar vagarosamente entre as letras.

“E”

- Meu Deus está formando algo.

“L”

- Não acredito! O que significa isso Clara?

“I”

- Um espírito… Ele está usando o copo para se comunicar. “S”

- Não pode ser…

“A”

- O espírito está respondendo o que perguntamos. É o nome dela! – falou Regina

- Elisa? Isso é loucura! – disse a inspetora – Recolham isso agora!

- Não podemos terminar assim Dona Helena… – retrucou Clara

As meninas explicaram que tinham que finalizar o que começaram, mas a inspetora não ficou convencida e retirou o copo do tabuleiro.

- Não por favor! Não pode ser assim… – pediu Clara em vão.

- Já vi muito por hoje. E quero as três em quinze minutos em minha sala. – disse a inspetora – E esse material fica comigo.

A inspetora recolheu o copo e o tabuleiro e saiu do vestiário.

“Elisa foi levada para a enfermaria do colégio, mas não havia nada a ser feito. Foi velada no salão de cerimônias do próprio colégio. Usando o vestido preto que vestiria em sua formatura. Sua pele pálida contrastava com o cabelo negro, escorrido, em volto a flores. As mãos repousavam sobre o peito com os dedos entrelaçados segurando um terço de prata. A cerimônia foi interrompida algumas vezes por causa dos desmaios de sua mãe e também para fechar os olhos de Elisa que se abriram duas vezes durante a madrugada. Ninguém soube explicar sua morte e nem achar os culpados por aquela infeliz brincadeira. Elisa se despediu de uma vida que não teve.”

Ainda no vestiário as meninas tentavam entender o que tinha acontecido. Clara disse que nunca tinha visto o copo se mover sozinho daquele jeito. Ana e Regina estavam mais preocupadas com a advertência que provavelmente receberiam.

- Meti vocês em confusão né? Desculpa… – disse Clara.

- Não! Estávamos curiosas para saber como era esse jogo. – respondeu Ana – Gente vocês acham que essa Elisa existiu mesmo? Tinha mesmo um espírito naquele copo?

- Eu acredito que sim! E o pior é que não terminamos, e isso não é nada bom.

Logo após, as meninas se dirigiram a sala da inspetora, ouviram duras broncas, ela condenou aquilo que chamou de obra de satanás e disse que se aquilo se repetisse ela teria que reportar a diretora.

As três prometeram não fazer mais esse tipo de jogo e se preocupar mais com os estudos.

Após saírem, Helena debruçou na janela, e pensou em voz alta:

- Elisa…?!?!

A inspetora jamais esqueceu daquele olhar triste, Elisa sentada em sua sala, chorando, humilhada, tinham destruído o trabalho que ela apresentaria na feira de ciências. A inspetora sempre esperou que um dia Elisa fosse explodir, soltar toda sua angustia, revidar as provocações. Mas isso nunca aconteceu. Quanto mais era provocada, mais se isolava. Por mais que quisesse ela não pode ajudá-la.

No dia seguinte Clara não conseguia prestar atenção na aula, tinha passado a noite inteira pensando no que tinha acontecido. A voz da professora parecia diminuir cada vez mais, os movimentos pareciam cada vez mais lentos…

Mas algo chamou sua atenção, ela viu uma menina passando pelo corredor, pode ver pela janela a menina andar lentamente até a porta. Ela vestia uma camisa branca totalmente fechada, uma saia de pregas azul marinho, e meias brancas. A menina ficou parada em frente à porta, com a cabeça baixa.

Ela olhou para suas amigas, mas todas prestavam atenção no que a professora dizia, se levantou e foi ao encontro da garota. Quanto mais se aproximava menos ouvia a voz da professora. Ficou frente a frente com ela. A menina tremia, as lágrimas escorriam no rosto delicado. Clara passou a mão no rosto da garota e levantou sua cabeça. A pele era pálida, gelada e endurecida, os olhos verdes arredondados tinham as pupilas dilatadas. A menina começou a caminhar pelo corredor. Clara passou a acompanhá-la. Seus passos eram curtos e rápidos. As duas desceram a enorme escadaria e continuaram caminhando. A menina parou em frente à diretoria e quando Clara se aproximou, ela se curvou e começou a expelir sangue. O sangue tomou conta de todo o corredor.

Clara gritou desesperada…

Todos na sala se assustaram com o grito de Clara.

- Clara? – perguntou a professora – O que aconteceu querida? Você está bem?

Ela olhou para a professora e apenas balançou a cabeça.

- Acho que você cochilou. Vá ao banheiro e lave seu rosto.

Regina se ofereceu para acompanhá-la e com a permissão da professora, elas se dirigiram ao banheiro.

- Ela está aqui! Rê, eu vi… Era ela… Elisa.

- Isso é loucura! Você teve um pesadelo.

- Foi real! Eu pude sentir. Ela estava muito triste, e começou a sair sangue de sua boca…

- A brincadeira do copo nos impressionou e você cochilou e acabou tendo um sonho ruim. Eu também não consegui dormir direito à noite.

As duas entraram no vestiário, enquanto Clara lavava o rosto, Regina ficou lendo os recados no mural pregado na parede.

- Que maravilha! Dia vinte tem show dos… Clara?

Ela não estava mais no lavatório. Regina estranhou e foi até o banheiro.

- Clara? Você está ai? – sem resposta, ela começou abrir a porta de cada cabine.

O medo tomou conta de Regina, a cada porta aberta sua tensão aumentava. Restara apenas a ultima porta. Ela suspirou fundo e tentou abrir. Estava fechada.

- Clara? Você está bem? Você quase me mata de susto!

- Clara? Quem está aí? Abra essa porta!

- Rê… Estou aqui! Fui pegar um lenço no meu armário.

- Mas… Se não é você, quem está nesse banheiro?

Nesse momento a trava da porta se abriu. Os pés de Clara e Regina pareciam cimentados pelo medo. A porta foi se abrindo lentamente com um ranger forte e lento.

Elas não esboçaram nenhuma reação…

Até que saiu do banheiro uma garota usando um fone de ouvido. Todas se assustaram. Após ela atravessar o corredor, as duas não conseguiram parar de rir.

- Tá vendo Clara? Estamos muito impressionadas. Você viu a cara dela?

- É verdade. Não sei quem estava com mais medo se era a gente ou ela…

- Precisamos voltar! Daqui a pouco a professora manda alguém ver o que está acontecendo.

- Vai subindo! Eu já vou… Toda essa história acabou mexendo com meu intestino. – disse Clara

Regina sorriu, colocou a mão no ombro de Clara e disse:

- Ok! Mas não demora hein? Bom, pelo menos você está melhor…

Regina saiu do vestiário. Clara, desabotoou a calça rapidamente e entrou no banheiro. E como sempre repetiu o velho ritual antes de travar a porta. Alternou a trava para OPEN e CLOSED duas vezes para não correr o risco de ficar trancada. Clara chegava a ser paranóica com algumas coisas. Tinha diversas manias, na sua casa antes de dormir, verificava pelo menos umas três vezes se tinha fechado a porta. Gostava de tirar todos os aparelhos da tomada e sempre fechar o registro do gás antes de sair.

Após terminar mais uma das suas verificações, enfim pode relaxar. Abaixou a calça, sentou no vaso e com os braços apoiados nas pernas repousou seu queixo sobre os punhos.

Naquele instante ela pôde ouvir passos. Alguém andava rapidamente pelo corredor. A pessoa estava ofegante e de repente bateu a porta e travou. Clara ficou arrepiada, alguém tinha acabado de entrar no banheiro ao lado.

Ela tentou se distrair, mas o som que vinha do outro banheiro a deixava aflita.

Clara podia ouvir a respiração ofegante que saia do banheiro ao lado.

Ela estava com medo, mesmo assim decidiu ver o que estava acontecendo. Subiu em cima do vaso e se apoiou na divisória, tentando espiar.

Viu a menina de cabeça baixa, chorando, com as duas mãos na nuca.

- O que foi? Precisa de ajuda?

A menina levantou a cabeça e estendeu as mãos cheias de sangue.

- Elisa?!?

Nesse momento, ela perdeu o equilíbrio e caiu. Ela estava no vestiário, mas tudo era diferente. Viu um amontoado de meninas conversando. E não acreditou quando viu aquela menina cruzar o corredor. Elisa…

Ela estava entrando no banheiro.

Clara ficou imóvel, olhando tudo o que acontecia ao seu redor. Viu as meninas retirarem as folhas dos cadernos e atearem fogo na porta.

Ela gritou, tentou ajudar, mas nada acontecia. Era como se ela não estivesse lá, era como um pesadelo.

Aproximou-se das meninas que se amontoavam no banheiro ao lado para ver o desespero de Elisa. Viu a maldade estampada no rosto de cada uma delas. Ao perceber que o fogo aumentava as meninas se afastaram do banheiro. Menos uma. Ela estava pendurada no vaso. Clara não hesitou e subiu ao seu lado. A menina dos cabelos cacheados estendeu a mão na direção de Elisa.

- Elisa aqui em cima! Suba por aqui! – gritou

O sistema de incêndio foi acionado, o alarme ecoava pela escola inteira.

Elisa apoiou-se no vaso sanitário, tentando atravessar a divisória.

- Isso Elisa! Força! – gritou desesperada – Você está conseguindo!

Elisa ficou na ponta dos pés, chegando ao limite e segurou firme a divisória até alcançar a mão da menina. Mas, a menina pregava a ultima peça em Elisa. No momento que Elisa conseguiu segurar sua mão ela puxou. Sofreu uma forte alavanca e caiu.

A menina deu um largo sorriso, virou para trás e Gritou:

- Óh meu Deus! Ela caiu! Ela caiu!

Sentindo uma forte dor na cabeça Clara se levantou. Abriu a porta devagar e espiou pela fresta. Não havia ninguém no corredor. Cautelosa, saiu do banheiro sem fazer barulho. Não havia nada no outro no banheiro, e todas as outras portas estavam abertas.

- O que você quer de mim? O que você quer de mim? O que você quer? – gritou

Foi até o lavatório, abriu a torneira, encheu as mãos de água e jogou no rosto. No intervalo, Clara contou para suas amigas o que tinha acontecido.

- Meu Deus… Parecia tão… real… Eu vi, ela estava no banheiro. Ela morreu aqui… Ela morreu no banheiro.

- Isso é loucura. Eu já falei pra você. – disse Regina


- Foi o jogo! Nós a despertamos com o jogo. Mas porque ela me atormenta? O que ela quer?

- Eu acho que sei o que podemos fazer, vamos conversar com a Dona Helena. Ela trabalha há muito tempo aqui, se Elisa um dia botou os pés nesse colégio ela pode nos ajudar.

As meninas seguiram a idéia de Ana. E procuraram a inspetora.

Entraram na sala e Clara começou a contar tudo o que tinha acontecido.

Dona Helena estava espantada. Não conseguia esconder sua perplexidade perante o que ouvia.

- Meninas… Não sei como dizer isso pra vocês. Mas o que a Clara acaba de contar, realmente aconteceu. Elisa estudou aqui nesse colégio há quarenta anos atrás, eu tinha acabado de entrar aqui. Tinha alguns meses de escola quando aconteceu um terrível acidente. Houve um principio de incêndio no banheiro e Elisa tentando escapar acabou tendo um traumatismo. Ela já estava morta quando socorremos. Foi tudo muito rápido.

- Então é verdade? Essa Elisa existiu mesmo? Não quero entrar naquele banheiro tão cedo. – disse Ana

- Sim! Querem ver a foto dela? Nós temos todos os prontuários.

A inspetora Helena abriu o extenso arquivo aonde guardava fichas de alunos de cada ano.

- Hummm… Cinqüenta e sete, cinqüenta e oito… Achei! Turma de sessenta e um.

Ela retirou as fichas e colocou em cima da mesa.

- Aqui está. Essa era Elisa. Ela era um anjo. Um amor de menina.

Clara pegou a foto e ficou olhando atentamente.

- Foi ela… Agora tenho certeza. Essa é a garota que tenho visto.

Dona Helena pediu para as outras meninas saírem da sala. Sentou ao lado de Clara e disse:

- Minha filha, eu disse para vocês não fazerem esse tipo de brincadeira. Mexer com pessoas que já se foram sempre atrai coisa ruim. Vou pedir para o Padre Lauro fazer uma oração no vestiário. Mas me promete que não vai contar para mais ninguém o que me disse. Não quero tumulto na escola. – disse a inspetora.

Clara concordou, mas ao sair, uma das fichas chamou sua atenção.

”Meu Deus… Foi essa garota que eu vi no banheiro. Ela não ajudou Elisa”.- pensou

Olhou atentamente para a foto e disse:

- Dona Helena, quem é essa?

Ela deu um enorme sorriso.

- Ah, sim! Não consegue reconhecer?

- Não pode ser. Jura?

- Sim, minha linda… Sim!

Clara saiu da sala muito confusa. As visões que teve pipocavam em sua mente. Saiu correndo pelo corredor e entrou com tudo na sala da diretora.

- O que é isso menina? – perguntou a diretora.

- Desculpa Dona Shirley. Mas a senhora… Precisa me ajudar. A Dona Helena…

- Calma…

- Não! Eu… Estou bem… Mas a senhora precisa vir comigo. – disse Clara ofegante

- Mas o que está acontecendo?

A diretora acompanhava os largos passos de Clara, sem entender o que acontecia.

- O que aconteceu? Diga o que aconteceu. – perguntou a diretora.

Mas Clara não respondia, andava cada vez mais depressa até parar em frente ao vestiário.

- Aqui! Ela está aqui… Entre, por favor…

As duas entraram no vestiário, a diretora acompanhava os passos de Clara.

- No banheiro, ela está no banheiro!

As duas entraram no corredor dos banheiros.

- Maldito zelador! Quantas vezes eu preciso pedir pra ele trocar essas lâmpadas.

- Ela está naquele banheiro! – disse Clara

- Não tem ninguém aqui menina! – respondeu a diretora ao abrir a porta.

Clara empurrou a diretora para dentro do banheiro e a porta se fechou. Ela se levantou e tentou abrir, mas sem sucesso.

- O que você está fazendo? Menina estúpida! Você vai pagar por essa brincadeira. Vai me pagar! – gritou enquanto socava a porta.

- Está com medo agora, senhora diretora? Engraçado… Achei que gostasse de brincar no banheiro. Você não gostava? Você e suas amigas?

- Cale essa boca! Você será expulsa! Menina insolente… Abra essa porta!

- Isso não te lembra alguma coisa?

- Não sei do que você está falando. Você deve estar maluca! Abra essa porta!

De repente um som estranho invadiu todo o vestiário. As portas dos armários começaram a bater. O ar ficou pesado e frio…

- Ela está chegando Dona Shirley. Consegue sentir? Elisa está aqui!

- Isso é loucura! Ela está morta! Elisa está morta!

- Sim ela está morta… Mas ela quer acertar as contas com alguém que lhe fez mal… Uma ex-aluna da escola. Uma garota mimada que adorava fazer maldade. Consegue se lembrar diretora?

A diretora estava cada vez mais desesperada. De repente ela sentiu algo agarrar sua perna. Ela olhou para baixo e viu Elisa saindo de um imenso buraco que se abria no chão. Ela estava com o rosto coberto de sangue. A diretora tentava se desvencilhar, mas não conseguia. Sentia seus ossos serem quebrados pela pressão exercida. A diretora gritou por socorro, e agarrou-se no vaso, mas já não conseguia conter a força de Elisa. Ao olhar para cima pode ver Clara, espiando tudo pela divisória.

- Me ajude… Por favor… Por fa…

A diretora foi completamente engolida pelo buraco, que então se fechou.

A diretora jamais foi encontrada. Seu desaparecimento ganhou notícias diárias em vários jornais e emissoras por um longo período.

Alguns meses depois:

Clara estava jogando handebol em um campeonato na escola. No calor da partida uma menina lhe acertou o rosto com uma bolada.

- O que foi sua idiota? Não gostou? Fracote!

Clara se virou para a arquibancada e lá estava Elisa observando atentamente. Ela então voltou seu olhar para a garota, deu um sorriso e disse:

- Vamos resolver isso, eu e você… Após a aula no vestiário.
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